artigo opinião Luis Horta
Luis Horta

Como pai e professor, preocupa-me particularmente a falta de investimento no sistema de ensino, que leva tantos professores a desistir da carreira ou a prescindir de um horário completo ou colocação longe da zona de residência

Artigo de Opinião pelo Professor Luís Horta, publicado no Jornal Postal a 13-12-2022

Fazer biscates para sobreviver ao desemprego é empreendedorismo. Usar uma manta ou praticar desporto para combater o frio, é uma forma de prescindir de aquecimento e poupar energia. Levar a marmita para a escola ou para o trabalho, é uma tendência e não um sinal de dificuldades económicas. Procurar por comida no lixo, o chamado “freeganismo”, não é sinónimo de pobreza extrema, é uma prática ecológica e anti consumista.  “Nesting”, ficar em casa durante todo o fim de semana, é tempo de qualidade e não um modo de vida filho de um salário insuficiente para fazer atividades… Estes e outros exemplos que pretendem modernizar retrocessos, são um resgate à tradição ou pobreza encapotada?

A romantização da pobreza, apesar de ser uma ideia bonita, em termos práticos não deixa de usar de toda a subtileza para evidenciar a falta de recursos como uma nova forma de estar na vida, capaz de combater o consumismo desenfreado e evitar perigos para o meio ambiente. Porém, quando os meios de comunicação passam este tipo de mensagens romantizadas, não acrescentam os problemas de saúde de quem come do lixo, de quem usa apenas uma manta para combater o frio, de quem estuda ao lusco-fusco para poupar luz…

O problema não está na necessidade de repensar hábitos de consumo e apostar em comportamentos mais sustentáveis, mas sim no capitalismo que anda entretido a repetir a frase feita de que “o dinheiro não traz felicidade”, sem perceber que pobreza não é simplicidade, muito menos júbilo. A mulher desempregada que se transformou em “empreendedora” a vender bolos através das redes sociais não está necessariamente satisfeita, e o homem muito rico não vive necessariamente solitário e triste, como tantas vezes vimos em séries, filmes e novelas. A falta de dinheiro e de oportunidades não é uma bênção. Embora o dinheiro não traga felicidade, “compra” uma série de serviços fundamentais, como o acesso à saúde, educação, cultura, lazer e justiça. Embora exista um ensino publico gratuito, um Serviço Nacional de Saúde e meia dúzia de eventos culturais grátis, a verdade é que o nosso sistema (ainda) não é justo nem igualitário, pelo que a meritocracia só serve para favorecer meia dúzia de pessoas que estão no poder e precisam de argumentos idílicos e exemplos heroicizados para justificas desigualdades. Às outras a pobreza tira o sono, a saúde e a alegria.

Por exemplo, de acordo com o conceito de romantização da pobreza, os jovens deveriam enfrentar de sorriso no rosto a diferença social e dificuldade de acesso ao mercado de trabalho. Deviam abster-se de tentar adquirir bens materiais, incluindo um carro e uma casa para morarem, condições fundamentais para o bem-estar físico e mental de qualquer pessoa. Deviam satisfazer-se com uma vida mais simples, mais flexível e amiga do ambiente. Mas há uma diferença gigantesca entre desapego e possibilidade de acesso, e quem no seu juízo perfeito prefere a carência? Prefere privar-se de bens materiais e até de construir as suas próprias oportunidades?

Voltamos então ao lado perigoso do capitalismo, convencer uma pessoa pobre de que está a trabalhar e não a ser explorada, de que tem de se esforçar mais quando as forças estão para lá do limite.

O conceito de romantização da pobreza no ensino

Como pai e professor, preocupa-me particularmente a falta de investimento no sistema de ensino, que leva tantos professores a desistir da carreira ou a prescindir de um horário completo ou colocação longe da zona de residência.

No início de mais um ano letivo, 60 mil alunos ainda estão sem professor… isto sim, é pobreza! Aliás, a educação continua a ser bastante marcada por desigualdades a vários níveis, nomeadamente económico. E não me refiro à dicotomia ensino público e ensino privado, refiro-me à própria família onde a criança nasce, que influencia diretamente o seu percurso escolar e académico, e à própria desigualdade dentro do ensino público, acentuada com a pandemia. É que a variação de resultados é enorme: regra geral, os alunos oriundos de famílias com mais recursos económicos têm mais condições e conseguem alcançar os mais elevados níveis de ensino, ao passo que os alunos de famílias com menos recursos, que têm menos condições e mais dificuldades.

As desigualdades visíveis no seio do sistema de ensino publico em Portugal, travam a mobilidade social ascendente, o acesso a outras fontes de conhecimento e até o usufruto de atividades culturais e de lazer.

Logo, para o princípio constitucional da igualdade no acesso e sucesso escolar ser uma realidade, é necessário um grande empenho para apoiar os alunos com maiores necessidades/dificuldades, nomeadamente através da contratação de mais professores e auxiliares, mas também de mais assistentes sociais e psicólogos, através da redução do número de alunos por turma, da democratização do acesso ao ensino superior, da educação para a cidadania, diversidade cultural e sexual, cultura, arte e desporto.

Não há ensino público inclusivo sem uma política educativa que promova a participação (e sucesso) de todos os alunos, dentro de escolas democráticas e modernas, focadas no desenvolvimento pessoal, social e profissional dos estudantes.

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